Boa noite, Maria João Trindade
1) Concordo com um tópico: deveria ser o Estado a assegurar globalmente o chamado ensino pré-escolar. Porquê? Porque:
a) Há suficientes dados estatísticos que nos permitem inferir que o desenvolvimento cognitivo, afectivo e motor das pessoas é geralmente exponenciado positivamente se estas forem adequadamente estimuladas em idades precoces, nomeadamente, entre os 3 e 6 anos;
b) Aquilo a que me refiro em a) não é tipicamente conseguido se as crianças pequenas forem educadas apenas em ambiente familiar, apesar deste ser um factor determinante neste segmento étário, mas nao só;
c) É plausível admitir que seja competência do Estado a minimização de desigualdades sociais, no desempenho do seu papel regular, contribuindo a educação pré-escolar para possibilitar, à partida, acesso a um mínimo demoninador comum que se designa por igualdade de oportunidades.
2) Um ponto mais discutível será este (embora entenda o que quer dizer): que a visão plasmada no relatório do FMI é uma visão meramente economicista. Porquê? Sucintamente:
a) Para que a visão seja literalmente económica (é isso que primariamente denotam termos como "economicismo", "economicista", ...), o que geralmente se presume é que (i) há uma primado da economia (discutível, claro), (ii) e que esse primado é justificável porque sem economia saudável, pelo menos a esmagadora maioria das pessoas, em rigor, não vive bem;
b) Mas se fosse o que no ponto anterior refiro, então teríamos como resultado uma economia nacional e intenacional globalmente pugante. Mas não é isso o que ocorre actualmente. Com efeito, temos contracção da economia no espaço nacional e também no espaço europeu (e a situação não se restringe ao espaço europeu, naturalmente). Logo, (i) se não há crescimento económico, (ii) não há desenvolvimento económico, e se não occorre (ii), então (iii) não pode ocorrer desenvolvimento económico sustentável (que é aquilo que pressuposta e razoavelmente se gostaria de ver implementado).
c) Dado que apenas as condições (i), (ii) e (iii) expressas no ponto anterior são separadamente necessárias, e talvez conjugadamente suficientes para se observar aquilo é típico de um IDH (Indicador do Desenvolvimento Humano), podemos afirmar com alguma plausibilidade que a visão economicista se deveria designar tão só por visão financeira e especulativa, a qual nao traz realmente bem estar global aos seres humanos.
3) Por fim, por que razão deve haver investimento público em educação? Porque é tipicamente através da educação, nomeadamente daquela que implica o desenvolvimento de conhecimentos de áreas como as ciências, as artes e a filosofia, pelo menos, que as populações humanas acedem a um IDH interessante, o qual é uma condição necessária para a felicidade dos agentes humanos, apesar de não ser uma condição suficiente. Dito de outro modo: para haver genuíno desenvolvimento humano sustentável, dadas as condições actuais do nosso planeta, não se conhece caminho distinto que não implique uma insistente capacitação dos seres humanos obtida, em grande medida, através da educação que deve universalmente ser disponibilizada aos agentes humanos. É que a educação de qualidade, possibilitada pelo Estado, não é rigorosamente gasto, mas sim investimento: nas pessoas e também na economia, pois claro.
Cumprimentos,
João Paulo Maia, Escola Sec. D. João II